A importância da Capelania Hospitalar

Na 1º Curso de Capelania Hospitalar promovido pela Sociedade Portuguesa de Beneficência de Santos, o presidente da entidade, Ademir Pestana convidado para falar na abertura do evento, destacou a importância da capelania para pacientes internados e para a própria instituição.

A importância da Capelania Hospitalar
 *Ademir Pestana

Ademir Pestana, presidente da Beneficência Portuguesa,
responsável pela abertura do evento

A visita hospitalar oferece na maioria das vezes, benefícios para os pacientes e seus familiares em função do apoio, da solidariedade e conforto que ela representa. Se além desses fatores, a visita oferece ainda, o conforto espiritual, o benefício ganha uma proporção maior, não apenas para o paciente e seus familiares, mas também para os colaboradores do hospital.

É aí que entra a Capelania Hospitalar.

É de conhecimento público que a Capelania Hospitalar na Beneficência é desenvolvida desde sua fundação em 1859 e oficialmente, a partir da inauguração da Capela Santo Antônio, em 13 de junho de 1930. Os padres responsáveis pela Capela sempre contribuíram e continuam contribuindo para a saúde espiritual e emocional daqueles que necessitam desse apoio.

Temos observado que nos últimos tempos tem aumentado a disponibilidade de outras lideranças com relação a seus préstimos aos acamados, na expectativa de colaborar para amenizar a carência espiritual, até certo ponto natural por parte de quem está em leito hospitalar e distante do convívio familiar.

Contudo, o hospital ainda não havia assumido a sistematização desse serviço realizado por tradição, mas há anos garantido pela Constituição Federal de 1988 (Lei n.º 6923, Art. 5, Inciso VII) que assegura a prestação de assistência religiosa em entidades civis e militares de internação coletiva. Se a Constituição brasileira prevê uma ação e normas para seu funcionamento e disciplinamento, é porque é importante, ou seja, o reconhecimento de que a assistência religiosa e social é benéfica.

Se analisarmos o histórico da sociedade como um todo, concluiremos que a Capelania Hospitalar é de estrema importância para o bem-estar dessa mesma sociedade lembrando que no passado os sacerdotes eram os chamados médicos da alma, os cura d’almas, e os templos religiosos eram utilizados, inclusive, como locais para atendimento e abrigo de enfermos.

Segundo historiadores, no ano de 437 a.C., Hipócrates que 23 anos antes deu início à fundamentação da medicina moderna, incentivou que todos os templos atuassem como hospitais, unidades que só passaram a existir séculos depois por iniciativa do Imperador Romano Constantino, que em 335 d.C., determinou a criação de hospitais cristãos.

Com base em pesquisas, percebe-se que no transcorrer dos tempos, saúde, medicina e acompanhamento espiritual sempre estiveram relacionados. E a capelania sempre esteve relacionada a estes vínculos com a participação de um sacerdote encarregado dos ofícios religiosos, da confissão e do aconselhamento pastoral.

Mais recentemente no século XIX, precisamente no ano de  1857, o Papa Pio IX, baseado em ações do antigo reino da França, que no transcorrer das guerras enviava relíquias ou simplesmente o oratório de São Martin de Tours, para os acampamentos militares para que os soldados pudessem, junto às peças e na companhia do sacerdote, buscar conforto espiritual, estendeu o trabalho de capelania foi  para colégios, prisões, parlamentos, cemitérios e hospitais.

Porém, não esqueçamos que em vários momento da história, ciência e religião estiveram bastante distanciadas e o período recente mais significativo desse afastamento tem registro no século passado quando cientistas, pesquisadores e médicos adotaram uma linha mais materialista, relegando a segundo plano, e na maioria das vezes negando que a fé ou o acompanhamento espiritual pudessem propiciar ao paciente, qualquer benefício.

Felizmente esse distanciamento vem diminuindo a cada dia, com a ação da capelania provando sua importância, principalmente quando situações de risco, eminentes ou não, se aproximam de nós, dos nossos entes queridos e até de incrédulos na hora crucial da vida de cada um com o seu cada qual (momento).

Para provar a importância da assistência religiosa, recorremos não apenas à nossa Carta Magna (Constituição), mas à recente história eclesiástica do Brasil que ostenta vários registros de ações pastorais identificadas como Ministério de Capelães, mostrando que o ofício de capelania moderna iniciou-se na Área Militar em 1858, através da Igreja Católica, sendo nominada na época por Repartição Eclesiástica e abolida em 1899.

Segundo o historiador espanhol, Juan Bautista, que define a capelania hospitalar como uma organização religiosa interdenominacional com a finalidade principal de prestar assistência espiritual em instituições hospitalares, o serviço foi restabelecido em 1944, durante a Segunda Grande Guerra Mundial, com o título de Assistência Religiosa das Forças Armadas. Ainda neste período, foi criada a Capelania Evangélica na FEB, tendo como destaque, o grande Capelão Evangélico Pastor João Filsen Soren, da primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro, que compõe a União de Capelães e Pastores Interdenominacionais (que não distingue denominação, ou seja, que não é exclusivo de uma igreja).

Esse conceito de capelania hospitalar ressalta mais ainda sua importância, observando-se que no Brasil é comum a existência de instituições que só têm um capelão, o padre ou o pastor, mas há também aquelas que dispõem dos dois representantes espirituais, ou que embora esteja oficializado apenas o sacerdote católico, está aberta a representantes de outras religiões.

Primeira turma do Curso de Capelania Hospitalar promovido pela Sociedade Portuguesa de Beneficência de Santos

E essa abertura está garantida na Lei Federal (nº 9.982, de 14/07/2000) que dispõe sobre este inciso Constitucional, referindo-se à assistência religiosa, com a especificação: “Às religiões, de todas as confissões, assegura-se o acesso aos hospitais da rede pública ou privada… para dar atendimento religioso aos internados, desde que, em comum acordo com estes, ou com os familiares, em caso dos doentes que não mais estejam no gozo de suas faculdades normais” .

Como a Capelania Hospitalar sintetiza os serviços religiosos prestados nos hospitais com o objetivo de dar apoio aos pacientes e familiares durante o período de internação, independentemente dessas unidades serem ou não de origem religiosa e apesar da liberdade de culto e do sincretismo religioso que existe no País, observa-se que não há aquela esperada valorização do cuidado espiritual a ponto de justificar a instalação de serviços de capelania hospitalar formalmente instituídos.

Apesar dessa realidade (ainda incipiente valorização para com o cuidado espiritual) uma grande movimentação pela humanização na área da saúde, mesmo que baseada em padrões estrangeiros, passou a valorizar esses esforços, evidenciando que a humanização auxilia, no mínimo, a amenizar os extremos (ansiedade e depressão) apresentados por significativa parcela dos acamados em leitos hospitalares.

Sabemos que a Capelania Hospitalar objetiva em primeiro lugar o atendimento espiritual e religioso aos pacientes hospitalizados, bem como aos seus familiares e aos profissionais da saúde, através do apoio emocional e social aos hospitais, contribuindo para com a humanização do ambiente e consequentemente elevando sua qualidade de atendimento

Por esta razão a Beneficência Portuguesa entendeu que, pioneira em várias ações, poderia e deveria também promover o I Curso de Capelania Hospitalar, para capacitar os interessados em se doar como voluntários a essa importante missão de levar o conforto através da fé àqueles que se julguem necessitados desse estímulo, enquanto internados na instituição.

Foi para atender as necessidades espirituais de pacientes e familiares, que a Sociedade Portuguesa de Beneficência de Santos decidiu organizar e promover o I Curso de Capelania Hospitalar, dentro do Projeto Social de Humanização (PSH) da Instituição, implantado oficialmente em 17 de fevereiro de 2017.

Reconhecido e legitimado na instituição, inclusive de conhecimento público, o Projeto Social de Humanização que envolve voluntários e colaboradores das mais diferentes áreas, hoje busca padronizar a prestação da assistência espiritual, de acordo com as leis vigentes no País, salvaguardando o cuidado e o respeito à cultura e aos valores espirituais dos pacientes e familiares.

Por isso, nos sentimos honrados por sermos destacados para falar sobre a importância da capelania hospitalar, nesse que é o primeiro curso do gênero, promovido por uma instituição hospitalar da região. O curso é   destinado a um público específico, independentemente de religião; destina-se às pessoas interessadas em aprender e engrossar as fileiras dos voluntários que levam conforto espiritual a quem necessita, seguindo as regras pertinentes à instituição responsável pelos beneficiados.

A Beneficência Portuguesa de Santos entende que a aderência ao tratamento médico (assiduidade com a qual seguimos as recomendações médicas), a satisfação do atendimento, a superação das adversidades e a qualidade de vida que envolve também o cuidado e respeito espiritual, passam pela humanização, o que nos credencia à realização desse I Curso de Capelania Hospitalar.

*Ademir Pestanapresidente da Sociedade Portuguesa de Beneficência de Santos é vereador na Câmara Municipal de Santos, autor do Projeto de Lei tramitando nas Comissões do Legislativo, que dispõe sobre a regulamentação do Serviço de Capelania na Cidade.

Nota: o 1º Curso de Capelania foi realizado no final de 2018 e já está em andamento, tratativas para a próxima edição, em função da lista de espera de interessados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Quer falar conosco? Mande uma mensagem!
Fale com nossos setores
Fale com os setores através do WhatsApp