Café Poético com Martins Fontes (Parte IV)

Vanderlei Abrelli (Martins Fontes)

Não há dúvida que interpretar, dar vida a uma personagem, função básica do ator é de uma responsabilidade imensa. Imagine “viver” uma personalidade que mudou conceitos, que inspirou mudanças, enfim, que povoou o imaginário de gerações… A percepção do ator relativa à construção da personagem e suas implicações não é tarefa das mais simples, especialmente quando essa personagem é uma unanimidade muito próxima de nós, mesmo que seja através de livros e de relatos de quem com ela conviveu. 

             Mais ainda quando o ator e personagem, sem truques de maquiagem são fisionômica e fisicamente parecidos. Intrigante a semelhança entre as pessoas no mundo e aqui, bem ao lado da gente, uma dessas semelhanças foi eternizada no Cinema através do curta metragem “Como é bom ser bom”, sobre um dos muitos episódios carregados de humanismo que rechearam a curta vida do médico e poeta santista Dr. José Martins Fontes, ou simplesmente Martins Fontes, que faleceu aos 53 anos em 1937.

Martins Fontes” e Ademir Pestana no Café Poético

            O “Café Poético com Martins Fontes” na Beneficência Portuguesa tem nos possibilitado o encontro com o poeta através de sua poesia e com o ator que lhe dá vida no cinema, Vanderlei Abrelli, cuja estreia como protagonista na ‘telona’ foi em “Como é bom ser bom”, cujo lançamento foi na Beneficência Portuguesa, hospital onde Dr. Zezinho, como era carinhosamente chamado, também exercia suas habilidades como médico, poeta e principalmente como ser humano generoso.

O poeta em tela de Waldemar
Lopes (acervo da Beneficência)

          “…Faço teatro desde jovem, a vida artística é uma paixão que me alimenta e fortalece, e quando criança ficava encantado com os Circos que sempre vinham em minha Vilinha. Como eram num terreno próximo a minha casa, eu sempre fazia amizade com as crianças circenses e tinha acesso garantido nos espetáculos. Eu sempre sonhava em fugir com o Circo, mas não tinha coragem, ficava observando a desmontagem e até o último caminhão ir embora. Mas, após adulto, descobri que “eu fugi com o Circo”. Eu escolhi o Circo, quando criança e ele me escolheu quando adulto e cá estou no mundo artístico. 

Cena do filme “Como é Bom ser Bom” na Beneficência

Meu encontro com o nosso querido: Doutor Zezinho, Martins Fontes, foi através do grande amigo, e agora saudoso ator, Osvaldo Araújo, foi ele junto com o Diretor, Carlos Oliveira que escreveram e roteirizaram o Curta Metragem: Como é bom ser bom! Nós estávamos num trabalho artístico sobre Nelson Rodrigues e o Osvaldo sempre me falava: …eu tô num projeto, que futuramente você vai fazer o papel do poeta! Mas ele nunca falava quem era, mas com o tempo ele deu a dica de que eu era a cara dele, um amigo que participava da conversa, sem saber, matou a charada na hora: …Martins Fontes, eu sempre achei, ele parecido! A partir daí começamos o projeto do Curta.

As locações do Curta, foram em locais incríveis, a maioria situada no centro histórico de Santos, fomos na Bolsa do Café, no Humanitária, onde ele trabalhou, tem até a máquina de escrever, original, que ele usava e a sala que ele atendia seus pacientes, e as praças centenárias, também filmamos boa parte na Beneficência Portuguesa, da qual tenho muita honra de ter conhecido e revivido a arte do doutor poeta.

Agradeço sempre a Deus, por ter me dado a oportunidade de trazer de volta, uma pessoa que sempre teve o Ser Humano e a natureza como inspiração para sua arte e seu trabalho.

Aprendi a amar as poesias de Martins Fontes, e uma que sempre me “balança”, quando leio é a Nosce te Ipsum (“Conhece-te a si mesmo”), parece que ele escreveu pra mim…     

Nosce te ipsum  (conhece te a si mesmo)

Quem serei? Quem sou eu? Não me conheço

e tu, meu sósia, te conheces já?

Estudaste a tua alma pelo avesso,

tua mortalidade que será?

                     Nota-me bem. Feito do mesmo gesso,

que o mesmo em tudo sejas. Oxalá!

E, sendo assim, contigo me pareço,

e, o que és, comigo se parecerá.

Verás, a olhar-me, tua imagem cara,

que a face é minha, mas o rosto é teu,

e a exatez a aparência desmascara.

Relembrarás alguém que ontem morreu,

e, reencarnando em mim, hoje te encara,

sem saber quem tu és, ou quem sou eu.

*O Café Poético com Martins Fontes, acontece de 17 a 23 de junho, período que compreende a Semana Martins Fontes em Santos, em homenagem ao poeta.

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