Café Poético com Martins Fontes (Parte VII)

Ademir Pestana e a escritora Edith Dias

           Encerrando uma semana de “Café Poético com Martins Fontes”, tradicional encontro da Beneficência Portuguesa de Santos em homenagem ao médico e poeta José Martins Fontes, os diretores da Instituição falam sobre o ilustre celebrado. 

            O evento que acontece anualmente, pela segunda vez consecutiva, devido a pandemia da covid-19, não pode contar com presença física, mas reuniu uma plêiade de amantes da extensa obra de Martins Fontes, que pelo site da Beneficência acompanharam depoimentos sobre o poeta que, de Santos para o mundo, foi considerado o melhor de sua geração na lusofonia e um dos dez melhores na língua portuguesa. 

Martins Fontes e placa em sua homenagem

            Martins Fontes nasceu em 23 de junho de 1884 e faleceu em 25 de junho de 1937.  Como médico trabalhou na Beneficência Portuguesa, onde, na entrada do Hospital Santo Antônio, uma foto sua em destaque, encimada sobre a frase “Nesta casa, honrando-a, trabalhou como médico, Martins Fontes” evidencia sua importância para a Família Beneficência.

             Ademir Pestana, presidente da Beneficência Portuguesa, na abertura da programação no último dia 17, falou sobre a importância do médico poeta, principalmente pelo espirito humanitário que o norteou por toda a vida e hoje, no encerramento, reafirma o incontestável valor do Dr. Zezinho Fontes, como era conhecido, situação eternizada no curta metragem  lançado em 2017 (direção do cineasta Carlos Oliveira) “Como é bom ser bom” com várias cenas rodadas na Beneficência, em cujo Salão Nobre (o mesmo onde o corpo do homenageado foi velado em 1937) teve sua avant première.     

               Legado – “A Beneficência nasceu humanizada, basta observar sua Capela (Santo Antônio) e aqui esteve Dr. Martins Fontes, dotado de espirito de humanização incrível, de um altruísmo impar que marcou não apenas sua vida, mas também a de quem dele se aproximava. O hospital (Beneficência Portuguesa), não importa se na mesma proporção ou não, busca na humanização estender o atendimento médico hospitalar a outros patamares no sentido de dar mais conforto, reciprocidade, usar da empatia para com os pacientes. 

Dr. Renato Novaes

              Nesta Casa onde Martins Fontes medicou, se busca praticar o atendimento humanizado para que independentemente da tecnologia que dispõe, preservar a aproximação tão necessária entre medico e outros profissionais da saúde e pacientes, objetivando um atendimento cada vez mais humanizado, contribuindo para a saúde física e mental das pessoas.  

             Resgatar a história do médico e poeta que tanto dignificou esta Casa é tarefa das mais importantes pois no mundo tumultuado em que vivemos, Martins Fontes, é, não apenas por suas poesias, sua generosidade, seu saber e capacidade profissional, uma inspiração. Ele é inspiração pelos bons exemplos e pelo humanitarismo que sempre pautaram sua vida. A realização do “Café Poético com Martins Fontes” foi a forma que a Beneficência Portuguesa encontrou para homenageá-lo resgatando sua história e repassando seu legado às futuras gerações”.

Diretores Carlos Alberto limas, Maria de
Lourdes Santos e Dr. Mario Cardoso

               Bons exemplos – Para o vice presidente, Renato Luiz Rodrigues Novaes falar sobre José Martins Fontes é de extrema importância em qualquer época pois sua trajetória foi marcada por bons exemplos, principalmente pelo caráter humanista que o distinguiu na vida profissional e fora dela. Para ele, “resgatar a memória de Martins Fontes, este praiano que teve uma vida agitada e prolífica é um alento na atual conjuntura quando pessoas com transtorno de personalidade antissocial demonstram sua ausência de remorso, destilam seu ódio e seu desprezo pelo próximo”.

              A figura do médico e poeta José Martins Fontes, o Dr. Zezinho Fontes é muito familiar na Beneficência, onde exerceu a Medicina até poucos dias (menos de uma semana) antes de falecer e isso não passa desapercebido, afirma Dr, Renato Novaes:

            “Poeta desde a infância, Martins Fontes acrescentou o ser “Político” durante a juventude e ainda o ser “Médico” na fase adulta, sendo atuante nesses campos o tempo todo de sua gloriosa vida. 

             Sua mente sempre ativa, nos brindou com poemas, traduções, produção científica médica. Foi amigo pessoal de Olavo Bilac e Oswaldo Cruz, dentre outros.  De Bilac ganhou o apelido de “Cachoeira” tamanha a inquietude de sua mente, que produzia ideias e textos sem parar. De Oswaldo Cruz foi assistente direto nas campanhas de saúde pública no Acre. Conheceu o Brasil de Norte a Sul.

Elenco do filme “Como é bom ser bom” na Beneficência

             Sempre bem vestido, com o indefectível cravo na lapela, desfilava sua simpatia e bondade. Atendendo pacientes na Santa Casa de Santos, na Sociedade Humanitária do Comércio de Santos e da nossa querida Sociedade Portuguesa de Beneficência, atendendo graciosamente aos que não podiam pagar por seus préstimos médicos.

Resgatar bons exemplos humanos é muito importante, principalmente nesta fase quando a intolerância tem falado alto”.

              Emoção – Quando estudante era sempre escolhida pelos professores para declamar, mas só lembra de ter contato com Martins Fontes na Beneficência Portuguesa, de cuja diretoria faz parte. Maria de Lourdes Santos, a Diretora Lurdinha se descobriu admiradora do grande homenageado da semana. 

           “Não tem como não se emocionar lendo uma poesia, um texto de Martins Fontes que tem tudo a ver com a Beneficência Portuguesa, principalmente quando se lê para uma plateia formada por poetas, artistas, escritores, pessoas que sabem tudo sobre o grande médico e poeta. 

            No início ficava um pouco tensa, mas as palavras vão sendo lidas, faladas e o sentido delas vai tomando conta do nosso coração e a emoção cuida do resto. Sempre me emociono quando sou chamada para falar, declamar, principalmente quando o chamado é surpresa. 

          Primeiro por ser escolhida entre tantas pessoas, depois pelo que representa a pessoa de quem estou falando ou lendo, principalmente quando se trata alguém relacionada à Saúde, alguém importante na vida de tanta gente. E falar de Martins     Fontes na sua casa, na nossa casa, a Beneficência Portuguesa é irresistível. O Café Poético na Beneficência é confirmar com o coração, o lema de Martins Fontes, médico consagrado, homem humanitário que deixou sua marca na frase: “Como é bom ser bom”.

                InspiraçãoDiretor Técnico da Beneficência Portuguesa, o médico Mario da Costa Cardoso Filho (Dr. Mario) destaca a importância do homenageado na Semana que lhe é dedicada pela Cidade de Santos, no Café Poético que leva o seu nome e sua relevância não apenas na profissão (Medicina) e nas Artes, especialmente na Poesia, mas pela retidão de caráter e principalmente como ser humano.

            “A importância do médico e poeta Martins Fontes é de extrema inspiração para a Sociedade Portuguesa de Beneficência, pelo seu histórico. Só a somatória da Medicina e Poesia que ele equilibrou magistralmente, trouxe uma contribuição imensurável para a humanização e esse legado é indiscutível. 

            O resultado da prática da Medicina e da Poesia por Martins Fontes é conhecido de todos, porque desenvolveu toda uma vida de amor e dedicação ao próximo. Como médico é um exemplo para a classe. Trabalhou de forma que todos nós defendemos que é retorno de uma Medicina onde números e portas devem ser abandonados ressaltando que a verdadeira relação entre médico e paciente é o início do sucesso no processo da cura. 

            Com Martins Fontes, medicina e poesia se completavam e ele, com seu jeito simples e acolhedor com que tratava a todos, não pode ser olvidado diante da popularidade que, merecidamente alcançou em vida graças ao modo como conduziu sua breve trajetória nesse plano”

            Humanitário – Embora pouco se manifeste sobre o tema do “Café Poético com Martins Fontes” e até sobre o homenageado pelo evento, o diretor financeiro da Beneficência Portuguesa Carlos Alberto Limas, já conhecia o poeta, seu trabalho, especialmente suas poesias e sua fama de pessoa destacada em diferentes áreas, mas principalmente como humanista. Mas foi na Beneficência que seu gosto pela poesia de Martins Fontes, considerado um dos mais importantes poetas do seu tempo, aflorou.

          “Li dia desses que Martins Fontes, médico que desenvolveu toda uma vida de amor e dedicação ao próximo, verdadeiro discípulo de Hipócrates e poeta de recursos variados, deixou uma obra vasta, constituída de mais de duas mil poesias e que sua fama de ser humano com alto espírito humanitário, corria por toda parte. E através de sua biografia, de suas obras, em especial de suas poesias, a irrefutável constatação: tudo que escrevia, mesmo que fossem apenas frases, ganhavam uma importância pelo conteúdo, pelo objetivo porque traduziam o ensejo de seu espírito humanitário.

          Para mim, toda sua vida foi pontuada de ações voltadas para o próximo como deixou claro em sua vivência profissional na Beneficência Portuguesa e humanitária por onde passou auxiliando os mais humildes

         “A minha bondade não provém da esperança, é somente piedade, uma piedade infinda, um carinho profundo por tudo quanto vive e sofre nesse mundo”.

         Frases como essa traduzem o espírito humanitário e o perfil brilhante desse incrível médico que durante anos escolheu a Benefícência Portuguesa de Santos para ser a sua casa de acolhimento, e cuidar e amparar os pacientes”. 

        Nos corredores desse renomado hospital, fechando os olhos e lembrando do grande ser humano e médico bondoso, quem sabe poderemos ouvir a sua voz a pronunciar… “Como é bom ser bom.”

        E é com a poesia, “Como é bom ser bom” considerada o epíteto que definiu, que conduziu o médico poeta José Martins Fontes pela vida, que encerramos o “Café Poético com Martins Fontes” de 2021, na esperança de que no próximo ano, possamos voltar a lotar o Salão Nobre, para juntos saudarmos, ele que é considerado o melhor poeta de sua geração na lusofonia, e um dos dez melhores na língua portuguesa.

“Como é bom ser bom”

Tu, que vês tudo pelo coração,
  Que perdoas e esqueces facilmente,
E és, para todos, sempre complacente,
Bendito sejas, venturoso irmão.

Possuis a graça como inspiração
Amas, divides, dás, vives contente,
E a bondade que espalhas, não se sente,
Tão natural é a tua compaixão.

 Como o pássaro tem maviosidade,
Tua voz, a cantar, no mesmo tom,
Alivia, consola e persuade.
E assim, tal qual a flor contém o dom.
De concentrar no aroma a suavidade,
Da mesma forma, tu nasceste bom.

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