Semana Martins Fontes – Um dedo de prosa

           Numa tarde fria de junho, um carro para à entrada do Hospital Santo Antônio e chama a atenção de quem se encontrava no local à espera do horário de visita aos pacientes internados na Beneficência Portuguesa de Santos. Não era um carro qualquer, era um estiloso Model T da Ford ou será que era um Model 30 da Dodge?

          Afinal, a marca do carro dos anos trinta (1930) é o que menos importa, pois para surpresa de todos, quem dele desceu foi nada mais, nada menos que o Dr. Zezinho. Ele mesmo, o famoso e muito querido Dr. José Martins Fontes, o mais comentado médico e poeta santista que chegava para um dedo de prosa com a direção do hospital.

          Naquela tarde de junho de 2016, o ator Vanderlei Abrelli, cuja semelhança com Martins Fontes (1884-1937) chama a atenção por onde passa, interpretava sua personagem maior, e dentro da programação anual em homenagem ao mais reverenciado médico, poeta, escritor e trovador da Cidade, quiçá do Estado e do Brasil do século XX, ‘voltava’ à casa onde exerceu a Medicina.

          Como não podia deixar de ser, após abraços, apertos de mão, uma conversa mais ao pé d’ouvido com o presidente da Beneficência, Ademir Pestana, seu admirador, com quem sorveu um cafezinho no alpendre principal do hospital, e depois, no mesmo local, com o Diretor Técnico, seu colega, Dr. Mario da Costa Cardoso Filho, uma prosa sobre o ser ou não ser da vida real.

          E nesse devaneio, quatro anos depois do ‘encontro’ naquela Semana Martins Fontes, que deliciosamente (para mim) teatralizei, uma vez que (voltando à realidade de 2020) devido a pandemia da covid-19 não podemos nos reunir para homenageá-lo, concluo que Dr. Zezinho, um apaixonado pela vida, terminaria aquela visita recitando um dos mais bonitos sonetos de sua autoria “Existir é sentir”. (Noemi Macedo)                                            

Existir é sentir

Mais do que à própria vida, devemos
Amar a Vida em sua plenitude.
A inconstância no amor não condenemos,
Porque esta falta pode ser virtude.

Ser fiel a um amor, se nunca o pude,
Fui ao Amor fiel, nos seus extremos:
Este, sendo imutável, não ilude,
E os desvios daquele são supremos…

Seja a forma de amor que se pressinta,
Por mais tênue, mais tímida e indistinta,
Deve-se bendizer, sem comparar.

Como a ausência produz o desengano,
Sobreenobrece o coração humano
Ser inconstante, sem deixar de amar.

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