Xô estresse!!!

“Além de gostar de gente e cuidar do próximo, o neurologista precisa ter equilíbrio emocional, assim como qualquer outro médico. Esse equilíbrio é necessário para o profissional ter empatia pelas dores e angústias do paciente sem absorver os problemas para sua vida pessoal.”

A definição do perfil do neurologista encontrada em um programa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo se adequa perfeitamente ao perfil do médico Juarez Harding (foto), neurologista responsável pela implementação da telemedicina na Beneficência Portuguesa, serviço pioneiro na Baixada Santista.

Ele, que em mais de duas décadas de profissão não viveu até então, situação, sequer parecida com a provocada pela pandemia da covid-19, afirma que trabalhar na área da saúde é conviver com o estresse e que a humanidade não estava preparada para enfrentar um flagelo dessa magnitude. O médico  ressalta que as outras pandemias não tiveram as características da difusão em massa a partir das redes sociais, um fator a mais na pandemia em que o mundo ainda está mergulhado.

Dr. Juarez cita entre as pandemias mais recentes a H1N1 ou gripe A, também chamada de gripe suína (2009-2010), que embora altamente infecciosa, teve expressão muito menor. É importante ressaltar que independentemente da covid-19, o mundo ainda convive com a pandemia provocada pelo HIV/Aids.

O neurologista comenta que o estresse é natural na profissão, mas fica mais evidente diante dos desafios de uma nova doença como a covid-19 que continua a cada estudo, apresentando uma nova incógnita, desde a medicação mais adequada como tipos de sequelas, imunidade, traumas, etc…

“Cozinha e o prazer fragmentado”

Didático, paciente, não se altera (pelo menos não demonstra) ao ter que repetir a informação, uma, duas, três vezes (ainda não presenciamos a quarta) seja para o paciente, familiar ou outros interessados, Dr. Juarez Harding encara como natural o estresse na profissão, especialmente diante de uma nova doença e mais ainda quando essa doença  assume disseminação mundial, numa pandemia que teve um início devastador tanto na propagação, quanto no tratamento dado em termos de orientações por parte dos órgãos competentes.

Ele confessa que no início da pandemia ficou abalado ao ver alguns pacientes. Se sentiu impotente diante do sofrimento e principalmente das incertezas perante a nova, desafiadora e cruel doença.

Então, a pergunta: o que um profissional que vive o dia a dia com a constância do estresse, faz para amenizar a tensão?

Detalhista, o neurologista Juarez Harding explica que seu desestresse é fragmentado, tem começou, meio e fim. Para ele, cozinhar, criar novos pratos é um prazer que não se restringe à beira do fogão. Ele começa bem antes e se completa horas depois com o deleite dos comensais.

“Trabalhar na área da saúde é conviver com o estresse. Por mais que uma nova doença, como a covid-19 se manifeste, somos pegos de surpresa porque ninguém, nem os líderes mundiais (estadistas ou ligados à área da Saúde, ONU, OMS, etc…), estavam preparados. A humanidade não estava preparada para enfrentar uma pandemia dessa magnitude. As pandemias anteriores não tiveram as características de redes sociais. As últimas como H1N1, tiveram expressão muito menor e não tinha a corrida da infodemia (avalanche de informações sobre um tema) associada.

Claro, que como médico já me abalei ao ver alguns pacientes, e com a situação como todo. Me vi impotente sim, afinal sou humano e isso se deu nos momentos de surto. Ver o pânico estampado no rosto das pessoas, era de arrepiar, principalmente por que no início da covid-19 não conhecíamos nada sobre a doença. É insano viver situações como essa.

O início foi tumultuado e apesar de ter visto a coisa com bom senso, acho que também me peguei surpreso demais, possivelmente com a avalanche de informações e orientações desencontradas. Desde o início é 8 ou 80. Por essa razão entendo que um dos prejuízos no trato para com a covid foi o exagero do começo, porque as pessoas relativizam demais e hoje, muitos ainda acham que nada era verdade. Esse é o perigo do extremismo.

Para desestressar lanço mão do meu maior hobby, cozinhar. Sinceramente, acho que se não fosse médico atuaria na área da gastronomia. Talvez seja esse o meu projeto para a aposentadoria.

A rotina como médico me faz bem, tenho prazer quando trabalho, mas existe uma responsabilidade muito grande, além de envolver a necessidade de renda, o que acarreta significativo estresse. Tenho um prazer imenso em trabalhar, mas nunca é um prazer puro, absoluto. Trabalho é trabalho. Já cozinhar, para mim não tem a responsabilidade para com terceiros, porque na Medicina a gente lida com pessoas, com vidas, no cozinhar a responsabilidade se restringe a agradar o paladar de quem vai comer.

 Não cozinho no dia a dia, mas quando me conecto com o hobby é só prazer. Às vezes até abuso porque me entrego como em um longo abraço e passo o tempo vivendo camadas de prazer que começa na escolha do cardápio, depois a compra dos ingredientes, a elaboração, a montagem, a execução. Finalmente apreciar as pessoas degustando, saboreando. Nesse momento estou totalmente desconectado do mundo real. Consigo fragmentar o prazer no meu dia de cozinha, antes mesmo da ida ao mercado. Ver as pessoas saboreando o prato que criei e depois me juntar a elas… tranquiliza a mente e acaba com o estresse! “

Autodidata na cozinha, o neurologista diz que gosta de criar pratos com frutos do mar e considera a confeitaria, o mais difícil na gastronomia … “porque é matemática, as medidas têm que ser corretas, muita atenção à temperatura do forno, muita calma para o preparo não desandar e eu não meço, não sigo receitas, não me atenho a regras, vou me baseando no feeling”.

O desestresse do Dr. Juarez começa na noite anterior ao seu dia de folga, mentalizando o cardápio que vai preparar no dia seguinte envolvendo: lista de compras, etc… etc… até o momento em que, como um Master Chef serve sua obra prima do dia. Seu desestresse em camadas (etapas) é um antídoto fragmentado para que dure até o próximo encontro gastronômico.

Na foto, Ceviche de Meca preparado pelo neurologista Juarez Harding

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Quer falar conosco? Mande uma mensagem!
Fale com nossos setores
Fale com os setores através do WhatsApp